Fotografia em 120 mm - 2021. Marlizia omo orisá - Ilê Asé Oju Onirê - SP

Uma conversa com Lucas Cordeiro

 

por Mirella Ferreira

‘‘PARA   
  ACALMAR A
  TERRA

Fotografia em 120 mm - 2021. Marlizia omo orisá - Ilê Asé Oju Onirê - SP

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arquivo queer

Lucas Cordeiro, fotógrafo e artista visual, 29 anos, utiliza a fotografia 35/120 mm e captações em celular como forma de registro. Nascido em Itapetinga, sudoeste da Bahia, entre a zona rural de Caatiba e Itapetinga, onde viveu até os 17 anos, quando se mudou para Salvador. Criado por sua avó, principal referência em suas fotografias, uma anciã, rezadeira, lavadeira, figura de maior ligação ancestral, espiritual e afetiva na sua construção de vida. Sendo parte de sua fonte de inspiração a beleza e o cuidado com os quais ela se debruçava sobre suas plantas, seus objetos, sua casa e sua família, que pautaram sua infância e adolescência, quando aconteceu seu primeiro contato com a fotografia, após sua mãe ganhar uma câmera digital da sua tia, e que ele tomou para si como objeto inseparável, onde criava histórias e cenas nas quais fotografava suas primas e irmãs no quintal de casa. Quintal esse onde sua avó exercia rezas e curas, sendo veículo para caboclos, entidades da mata e da cura presentes em cultos de religiões de matrizes africanas, vivência que permeou suas imagens e subjetividade anos mais tarde, a partir do seu processo de iniciação no candomblé.

Fotografia em 120 mm - 2021. Yá Natalice e Marlizia.

‘‘Eu crio a partir do que vejo. Tem uma experiência minha misturada com a do outro; existe um lugar onde essas trocas conversam e se tocam criando uma imagem a partir disso, ou materializando em imagem algo que já estava presente na minha cabeça ou na minha história. Me sinto uma espécie de veículo, revelando algo ali naquele instante.’’

Fotografia em 120 mm - 2021. Yá Natalice e Marlizia.

Tatear o passado e as suas memórias, cruzar caminhos e misturar experiências, muito embora o seu alcance sempre desague numa nova história, parafraseando Beatriz Nascimento, em Óri, quando ela comenta sobre os contornos irrecuperáveis que as suas mãos tentam alcançar. 

Nessa tentativa de alcançar algum contorno, se é que é possível, Lucas transforma a criação visual numa abertura de caminho ao sensível, entre conexões reais que permitem que a beleza do ser, do sagrado, e suas narrativas, se revelem junto com a imagem. Uma criação sem roteiro prévio, mas que parte de um pensamento visual que se localiza num tempo espiralar. Os elementos presentes são peças que fazem parte da história do artista e dos fotografados, seja em memória afetiva ou religiosa. Quando esses elementos dialogam com o outro, não existe personagem, o que se mostra é um espaço de abertura no qual fotógrafo e fotografado se tornam veículos um do outro, criando um lugar legítimo e orgânico, sendo esse, um fator fundamental nessa construção em conjunto.

Aqui, o fotógrafo sai do lugar do voyeur ou do antropólogo — como historicamente aconteceu na fotografia sob domínio da branquitude para com pessoas negras, em registros pautados pela invasão de seus espaços, a partir da construção de uma imagem estereotipada, exótica, num lugar de ‘outro’; sem domínio da própria imagem, sem troca — porque ele é parte dessa narrativa; esses elementos e vivências não são separados da sua vida.

Série: ‘Para acalmar a terra’  120 mm - 2021.
 Série: ‘Para acalmar a terra’  120 mm - 2021.

‘‘As mulheres quando aparecem em meu trabalho, partem de um lugar de honra ao feminino. Um movimento embasado na minha relação com a minha avó. De honrar, bater a cabeça, reverenciar, saber da onde eu vim, de onde vieram meus aprendizados, dessa matriarca que formou minha visão de mundo e por quem tenho grande respeito e agradecimento’’

Como você se vê?

‘‘Hoje eu acho que tem um equilíbrio em meus registos, entre homens e mulheres. Os registros com os homens vão para um caminho da imagem de moda, mas quando fotografo mulheres, as imagens são de outra natureza; tem uma ligação mais espiritual com aquilo, fala muito sobre eu ter sido criado e inspirado por uma figura feminina. Sempre tenho muito cuidado em pensar como é vista a mulher em meu trabalho, para que elas sejam retratadas em seus espaços, com suas roupas, como elas são. Existe a minha história e a delas, e existe esse ponto de cruzamento que a fotografia proporciona.’’

Lucas nos conta sobre a influência visual em seu trabalho dos elementos utilizados pela sua avó, a memória do sangue que escorria na bacia brilhante de alumínio ao sacrificar um animal para o alimento da família, o seu espaço geográfico, o clima quente da cidade; elementos esses que ganham novas ambientações em suas imagens, como no registro abaixo, da yalorixá Natalice e sua filha Marlizia, omo orisá, (ilê Asé Oju Onirê - SP), em sua casa, onde também se encontram essas bacias, o ojá (lenço) na cabeça, o brilho do ser, o brilho do alumínio, elementos delas, elementos da sua avó.

Série: ‘Para acalmar a terra’  120 mm - 2021.

 Amanda de Obá,   orixá a qual foi consagrada, levando o àjàpá (cágado) no orí (cabeça),  o bicho que corresponde ao Orixá Xangô

‘‘A experiência mais linda
  da minha vida foi a minha
  feitura, ser consagrado 
  ao orixá dono do meu orí.’’

‘‘A espiritualidade surgiu para mim na infância. Minha avó recebia e cultuava caboclo, curava muitas pessoas, mas tudo ainda com aquele véu que encobria o assunto. Na adolescência, costumava ir à biblioteca, olhar livros sobre candomblé, que me chamavam muita atenção. Quando tinha oportunidade de utilizar a internet, pesquisava também, e quando cheguei à Salvador, entendi que era o meu momento de conexão maior com a minha espiritualidade. Nesse espaço de tempo comecei a frequentar a Casa de Oxumarê, onde senti total pertencimento e fui iniciado posteriormente.’’

Egbomi Natalice de Yemanjá (Casa de Oxumarê - SSA),  irmã de santo de Lucas,    se complementando aos elementos da orixá a qual foi consagrada.  35 mm - 2019

As filhas de santo se revelam incorporando orixá, natureza, elementos, bichos, dentro do seu espaço de poder, como um terreiro, onde muitas dessas mulheres ocupam cargos de autoridade e são respeitadas pela sua ancestralidade, pela sua sabedoria, pelos seus ensinamentos. Fazendo um recorte de Yá Natalice, fora do espaço de axé, ela pode ser vista como uma senhora comum, mas lá dentro, ela é uma rainha, para ela e sua comunidade, onde sua bênção é pedida onde quer que ela passe. É sobre a potência de estar em seu lugar de pertencimento.

Na imagem, Irmã de santo e de barco de Lucas,  Amanda de Obá,  

orixá a qual foi consagrada, levando o àjàpá (cágado) no orí (cabeça), 

o bicho que corresponde ao Orixá Xangô, assim como faz Obá, 

traduzindo também,  na imagem, a sua conexão com Xangô.

‘‘O candomblé aparece em meu trabalho como uma forma de devolver todo amor que eu recebo. É uma extensão da minha construção de vida, um lugar de afetividade com os meus orixás, as minhas irmãs, a minha comunidade de asè, as trocas,  a vivência em família, os aprendizados, os elementos, as folhas, os bichos... Tudo isso é um todo, um corpo só.’’

Como nos ensina o asè, tudo tem importância e função e é isso que completa o todo que está em nós, em equilíbrio.

‘‘As filhas de santo aparecem no meu trabalho num espaço de integração com os símbolos dos seus orixás.  Eu gosto de mostrar a importância delas se verem sendo representadas com os animais que correspondem aos orixás que elas foram iniciadas e como elas são lindas revivendo a história dos seus orixás. É a minha forma de agradecer por estarem em conexão comigo na construção dessas imagens’’

Na imagem, Egbomi Natalice de Yemanjá (Casa de Oxumarê - SSA),  irmã de santo de Lucas, 

 se complementando aos elementos da orixá a qual foi consagrada.

35 mm - 2019

Ilmara de Nanã (Casa de Oxumaré - BA), irmã de santo de Lucas,   em conexão com Dã (cobra) essência do orixá Oxumarê  que tem ligação de filho com a orixá Nanã.

Ilmara de Nanã (Casa de Oxumaré - BA), irmã de santo de Lucas,

 em conexão com Dã (cobra) essência do orixá Oxumarê

que tem ligação de filho com a orixá Nanã.

Fotografia em 120 mm - 2021. Presente na série Saudade - Itaú cultural.jpg

Fotografia em 120 mm - 2021. Presente na série Saudade - Itaú cultural

‘‘o orixá pede meu orí, mas o corpo também pede, aquele resgate, aquela memória.’’

‘‘PARA ACALMAR A TERRA

Uma conversa com Lucas Cordeiro

 

por Mirella Ferreira

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Lucas Cordeiro vive e trabalha entre Salvador e São Paulo. Seu trabalho afrocentrado dialoga com intersecções entre ancestralidade, religião e tecnologias. Vídeo e fotografia simulam possibilidades entre espaços reais e virtuais por meio de sua pesquisa. Para conhecer mais do trabalho do artista, clique aqui.

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